Bastidores do Enraizando: A Copa do Mundo (parte 3)

Antes de entrarmos na produção do primeiro episódio do Enraizando, uma breve correção quanto ao último texto: o Welligton não apenas odeia futebol; ele também evita o Twitter toda quarta-feira à noite (não julgo; eu evito em noites de MasterChef) e, toda vez que começamos a falar disso aqui no escritório, ele quer que a gente morra (palavras dele).

Com isso esclarecido, vamos ao que interessa de fato: Quase todas as informações que vocês vêem no episódio da Copa foi o Marcelo quem trouxe. Quando fomos ver o que cada um tinha levantado, todas as minhas curiosidades já apareciam na pesquisa dele — com exceção de uma:

O lance da bola com gomos brancos e pretos ter sido criada na Copa do México e ser desse jeito pra aparecer bem na TV foi novidade até pro Marcelo — enquanto boa parte do resto foi novidade pra mim.

Enfim, era hora de começarmos a filtrar tudo aquilo e ver o que era mais relevante e/ou mais interessante mostrar no episódio e o que deveria ficar de fora. Pra nos orientarmos, eu montei um pequeno esqueleto de roteiro com o que achei que deveria constar no vídeo:

Minhas anotações originais pro episódio (e um jabá acidental pro nosso contador, que deu o caderno com a marca nas páginas)

A partir daí, eu e o Marcelo fomos trabalhando o texto juntos, até darmos a ele a forma que queríamos — e, evidentemente, algumas coisas da lista acabaram ficando de fora da versão final.

Acredito que aqui caiba falar um pouco sobre o nosso processo de roteirização: fora esses rascunhos iniciais, que eu gosto de escrever à mão, fazemos tudo no Google Docs, em um documento compartilhado, que vamos editando simultaneamente, cada um de seu computador.

Nisso, muitas vezes retrabalhamos ou removemos parágrafos inteiros por não conseguirmos fazer uma ligação natural entre as informações contidas neles — queremos, sempre que possível, encontrar uma ponte entre cada informação, pra que o texto não fique pulando de um lado para o outro, citando coisas aleatórias. Cada parágrafo tem que pegar a deixa do anterior, apresentar seu próprio conteúdo e, depois, levar ao próximo.

Falando nos aspectos mais técnicos, a menos que tenhamos que mostrar o texto para um cliente (ou a pedido do mesmo), é um tanto raro fazermos o que o pessoal chama de “roteiro publicitário” (aquele com três colunas, onde uma traz os diálogos e/ou a locução, outra descreve o que deve aparecer em tela e uma terceira mostra o tempo que cada trecho deve durar).

Exemplo simplificado (sem a marcação de tempo) do chamado “roteiro publicitário”. Como foram previamente submetidos à Fundação Cultural de Joinville, todos os episódios de Raízes do Brasil foram escritos neste formato.

Por limitações de prazo e por trabalharmos juntos há tanto tempo, já nos acostumamos a dar bastante atenção ao texto em si (no caso do Enraizando, a locução) e deixarmos para resolver a parte visual direto na hora de fazer o storyboard (caso você não seja da área, trata-se de algo similar a uma história em quadrinhos; normalmente, é aqui que o diretor decide como quer gravar cada cena, quais enquadramentos quer usar, o que aparecerá na tela, etc., e isso vai guiar o resto da equipe depois).

Fazemos isso porque, neste ponto, a nossa prioridade é ter certeza que a informação está bem explicada, que a linguagem está de acordo com o que queremos e também para garantir que o texto pode ser lido confortavelmente no tempo que estipulamos.

Momento em que aprovamos um roteiro

Enfim, o nosso processo de design da informação não se restringe à parte visual. Ele começa desde a elaboração do conteúdo e passa por toda a parte de redação, antes mesmo que qualquer vetor (explicarei mais adiante, caso você não saiba do que se trata) seja desenhado.

E, pessoalmente, acredito que a habilidade de se comunicar bem através da escrita seja essencial para qualquer designer, por melhor que ele (ou ela) seja com representações visuais.

Designer tentando fazer a defesa escrita de um projeto

Voltando à questão da linguagem que buscamos: é sempre um equilíbrio delicado entre a leitura de um texto e uma conversa com o espectador, mas sem interagir muito com ele, nem fazer perguntas (do tipo “você sabia que…?”); ademais, temos que tomar cuidado pra que o texto não fique muito informal, tampouco formal demais a ponto de soar como algo que se leria em uma enciclopédia, por exemplo; pra completar, também não queremos falar “de cima pra baixo” com quem nos assiste, mas, ao mesmo tempo, também não queremos simplificar demais a ponto de diluir a informação e fazer o espectador se sentir desrespeitado.

Além de tudo isso, como queremos abordar a maior quantidade possível de conteúdo em um espaço de tempo limitado — sempre miramos em algo em torno de 3 minutos para o Enraizando; quando extrapolamos esse tempo, é porque não foi possível cortar nenhum trecho do roteiro sem prejudicar o todo — , às vezes acabamos cometendo algo que apelidamos de “vômito de informações”: vamos falando, falando, e falando, quase sem pausa, o que pode deixar o ritmo do vídeo meio frenético e difícil de acompanhar.

Não esquecendo, também, aquela ligação entre os parágrafos que comentei acima.

Se não tomarmos cuidado, é isto que acontece

Considerando todos esses critérios, nós adotamos (e recomendamos) uma prática simples, mas bem eficaz: quando nos sentimos satisfeitos com um texto, lemos ele em voz alta, no ritmo em que imaginamos enquanto escrevíamos, e cronometramos essa leitura. Se a mesma palavra se repetir várias vezes no mesmo parágrafo, percebemos aqui; se estiver excedendo demais o tempo, revisamos e editamos; se algo ficou meio confuso, corrigimos.

Muitas vezes, algo fica ótimo no papel, mas péssimo na hora de ser lido, e este passo ajuda muito a evitar que isso aconteça.

Com o tempo, nós internalizamos todo esse processo e já fazemos isso automaticamente (não só no Enraizando, como também nos trabalhos para clientes externos), mas foi uma questão de tentativa e erro, revendo cada vídeo depois de pronto e observando o que funcionou e o que tínhamos que melhorar.

Se você quiser conferir o que nós consideramos como o exemplo de um “vômito de informações” bem sucedido numa animação, veja o vídeo abaixo (aliás, veja todos os vídeos desse canal — a maioria tem legendas em português):

O vídeo acima foi bastante influente no estilo do roteiro e, principalmente, na estética e na animação do Enraizando — com o tempo, nós fomos “encontrando” a identidade do canal e eu pude refinar e definir melhor o que seria o nosso estilo de ilustração, transições e animações.

Mas eu estou me adiantando. Afinal, depois do roteiro, o nosso próximo passo sempre é o storyboard — e eu sei que tinha prometido falar dele aqui, mas me empolguei e não quero deixar este texto longo demais; Além disso, não quero passar correndo pelo storyboard porque ele é uma etapa importantíssima.

Sendo assim, semana que vem começamos direto na parte visual.

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