Bastidores do Enraizando: A Copa do Mundo (parte 4)

Oi, de novo. Antes de começar, queria mandar um abraço pro meu amigo Rafael Busmayer, que se disse curioso pra saber como a história continuava.

(Preciso criar introduções melhores pra estes textos…)

Enfim, de volta ao assunto.

Quando temos um roteiro bem redondinho, nós três (o Marcelo, o Welligton e eu) sentamos juntos pra fazer o storyboard do vídeo — isso se aplica ao Enraizando e também aos demais trabalhos de vídeo e/ou animação aqui do Rizoma.

Parêntese rápido pra explicar o que é um storyboard: Como eu mencionei no texto anterior, é algo próximo a uma história em quadrinhos, onde são definidos os planos/enquadramentos das cenas de uma determinada obra audiovisual.

Storyboards do primeiro Star Wars, desenhados por Joe Johnston

Porém, ao contrário de uma HQ, que pode ter quadrinhos verticais, redondos, de página inteira, e por aí vai, o storyboard já segue a razão de aspecto (o “formato de tela”, pra simplificiar) pretendida para a versão final do vídeo/filme que será produzido.

Tudo bem até aqui?

Apesar de o ilustrador oficial/de plantão aqui no Rizoma ser este que vos escreve, não costumo ser eu a fazer os storyboards do Enraizando. É mais ou menos a mesma situação do “roteiro publicitário”, que comentei no texto anterior: se teremos que mostrar para o cliente, imprimimos a folha com os quadros, e aí, sim, eu desenho tudo bem bonitinho para depois escanearmos e enviarmos.

Mas quando é só pro nosso uso interno – e especialmente no caso do Enraizando –, eu deixo essa tarefa pro Welligton, por alguns motivos bem simples:

  1. A chance de ele implicar com a composição de alguma tela/cena tende a cair, já que ele participou da concepção visual dela;
  2. Não é sempre que eu tenho paciência pra isso;
  3. Eu demoro muito pra fazer, porque dizem que eu “detalho demais” — e isso será um tema constante nesta série de textos;
  4. Reconheço que, às vezes, eu fico um pouco preso com relação à representação gráfica de certos conceitos, e às vezes ele traz boas ideias pra solucionar alguns desses problemas — em compensação, há ocasiões em que eu tenho que podá-lo, porque ele pediu algo inviável.

Isto posto, enquanto boa parte das nossas etapas de produção pode ser feita por cada um de nós separadamente, esta é a única que nós sempre insistimos em fazer de forma coletiva.

Storyboard é esporte de equipe por aqui

Pra começar, é essencial que o ilustrador e o animador (normalmente, eu faço os dois papéis) estejam presentes neste estágio, pra que entendam o que foi imaginado em cada cena e não haja nenhuma dúvida com relação ao que precisa ser desenhado e como isso deverá ser animado depois.

Da mesma forma, é importante que o roteirista (também sou eu, mas tendo a dividir este papel com mais alguém) assegure que o que ele escreveu foi entendido e a mensagem não se perderá na “tradução” pro meio visual.

E, apesar de eu ter brincado no item 4 ali em cima, é importante que os três ofereçam opiniões construtivas e soluções criativas para os problemas que cada cena apresenta – mesmo que algo proposto esteja além do nosso alcance no momento, em termos técnicos, podemos encontrar um meio termo ou até mesmo ir discutindo e chegar em uma solução que nenhum de nós havia contemplado até então.

Tá, todo esse falatório é legal, mas como é um storyboard do Enraizando, afinal?

Acredite se quiser, eu ainda tenho os originais:

Páginas 1 a 4 do storyboard do episódio da Copa — é, eu sei que não parece grande coisa quando se vê assim (peço desculpa pela qualidade, mas eu estava sem scanner na hora, então o iPhone e um ajuste rápido no Photoshop tiveram que servir)

Hoje em dia, usamos um modelinho padrão aqui, com 6 quadros por página e duas linhas para anotações embaixo deles, mas durante muito tempo fizemos tudo no formato acima, em que eu desenhava os 9 quadros em cada página (sem régua, como é evidente) e partíamos dali.

Nosso modelo atual

Voltando às páginas que coloquei mais acima, elas trazem algumas curiosidades bem interessantes.

Primeira e mais aparente: se você não participou da elaboração daquilo e/ou não viu o episódio pronto (e, se for este o caso, faça-nos esse favor), é bem possível que tudo que está desenhado ali pareça um tanto… confuso.

Porém — e eu peço razão para me gabar um pouco aqui, mas o Welligton pode confirmar o que eu vou dizer — eu sou muito bom em pegar um rascunho que, a princípio, não parece grande coisa, e criar, a partir dele, um desenho bem mais elaborado.

Foi assim com as ilustrações que fazem parte da nossa identidade visual, por exemplo:

Acima, o rascunho do Welligton (com um pequeno estudo que eu fiz pra entender melhor o guindaste, ali no canto); Abaixo, minha ilustração final

De volta às curiosidades, a segunda delas seria: repare que o comecinho, como foi desenhado, é meio diferente do início do vídeo:

Fiz um GIF pra facilitar =D

Basicamente, eu estava ilustrando (ou talvez já estivesse animando, sei lá) e percebi que o texto não estava alinhando exatamente com o que fizemos no storyboard — por isso, joguei o globinho lá pro final da coisa toda; em seguida, tirei o “Ah, eu tô maluco” que os personagens falariam — porque achei que ficaria bobinho demais; depois, cortei o lance da bola quicando na tela e desenhando o logotipo do Enraizando – daria trabalho demais pra fazer isso “na mão” (não tínhamos nenhum plugin de física, como o Newton, pra fazer isso automaticamente) e eu não tinha tempo pra ficar “polindo” essa sequência até ela ficar boa como deveria (eu ainda tentei escapar de ter que desenhar vários personagens diferentes, mas não deu certo — detalharei isso mais adiante).

Terceira — e talvez mais importante — curiosidade: repare que as “pessoinhas” desenhadas ali têm cabeças e corpos “normais” (tá, talvez nem tão normais assim, mas pelo menos estão separados). Isso ocorre porque eu ainda não tinha criado o estilo dos nossos personagens – aliás, nós nem tínhamos a ideia de criar um modelo padrão para os personagens do Enraizando.

Acho que essa revelação bombástica (ou nem tanto) é um bom lugar para encerrarmos por hoje. No próximo episódio nós retomamos direto na fase de ilustração.

Start typing and press Enter to search