Bastidores do Enraizando: A Copa do Mundo (parte 5)

Até que enfim, agora nós entramos no território da ilustração propriamente dita — afinal, com o storyboard pronto, ele vem para a minha mesa, onde passa os próximos dias me vendo reclamar (bastante, por sinal) e fazer mágica, transformando aqueles desenhos em belos (e, ultimamente, cada vez mais complexos) vetores (nossa, como essa frase soou pedante).

E eu prometi que explicaria o que é um vetor, caso você não soubesse. Deixa eu puxar a definição lá das aulas de computação gráfica, no primeiro bimestre do meu primeiro ano de faculdade.

Nem parece que 2009 foi há tanto tempo assim

Basicamente, existem dois tipos de arquivos de imagem: aqueles baseados em pixels e aqueles baseados em vetor. O primeiro tipo é o mais comum. As imagens que ilustram este texto são assim, as fotos que você tira com o celular também, até mesmo a tela da sua TV de LED/LCD.

Essencialmente, esse tipo de imagem é composto por centenas ou milhares de pixels, que são pequenos quadrados de cor sólida. Quanto maior a resolução da sua imagem, mais pixels são usados na composição dela, chegando ao ponto de você só conseguir vê-los se der um zoom.

E então temos as imagens em vetor, feitas em programas como o Adobe Illustrator (o que usamos aqui) e o Corel Draw, por exemplo, e que são compostas por equações matemáticas (oi?). Enquanto no outro tipo você consegue ver as unidades de cor (pixels) que compõem a imagem, no caso dos vetores, se você der zoom, o programa recalcula a equação e a imagem nunca fica quadriculada. Então, se você fizer uma bola em vetor, pode ampliá-la o quanto quiser e ela sempre ficará “lisinha” nas bordas.

À esquerda, um exemplo de vetor sendo ampliado; à direita, um bitmap. Repare como se torna possível ver os pixels que compõem o passarinho do Twitter

Se não me fiz entender, aqui explicam melhor.

Por que usamos esse tipo de arquivo? Bom, pra começar, esses arquivos são mais fáceis de se editar e alterar quando comparados a um .PSD (o formato de arquivos do Photoshop). Afinal, da mesma forma que o programa recalcula as dimensões da imagem (como citei acima), você pode modificar as propriedades de cada forma como quiser — o que não seria possível trabalhando com imagens baseadas em pixels.

Meio tosco, mas serve pra ilustrar a edição de um vetor

Fora essa maior possibilidade de edição das imagens, existe o fato de o Illustrator trabalhar com diferentes camadas. Abaixo está a organização do personagem mais básico do Enraizando (e que serve de modelo pra todos os demais, desde 2014):

A quantidade de camadas varia de acordo com a necessidade de cada personagem específico, mas é mais ou menos por aí

Pra que serve isso, afinal? Quando o personagem vai ser animado, eu posso pegar cada uma dessas camadas e animá-la separadamente. Se eu quero que o personagem erga o braço esquerdo, seleciono ele e mexo; Se quero que ele mexa só um dos dedos, também é possível; Se ele precisa piscar, é só ir direto na camada “olhos”, e por aí vai.

Porém, se eu for descuidado e deixar meu personagem todo numa camada só, eu não tenho mais essa liberdade.

Outro fator importante: a animação do Enraizando é feita no Adobe After Effects. Por ser da mesma “família” do Illustrator e do Photoshop, a integração dos programas permite que eu edite meu arquivo .AI e veja as mudanças imediatamente no After Effects — suponhamos que, ao animar, eu decida que um personagem devia ter uma camiseta de outra cor: basta mudar no Illustrator e o After (nós trabalhamos juntos há bastante tempo, então chegamos no ponto de chamar um ao outro só pelo primeiro nome) já atualiza o arquivo, sem precisar fechar nada.

As mesmas camadas, agora no After Effects, prontas para serem animadas

Por fim, o Photoshop também tem camadas. Poderia fazer as imagens nele? Sim, poderia. Mas os vetores tendem a ser arquivos mais leves — e, portanto, menos propensos a travar o programa (e o computador) na hora de fazer a animação.

Enfim, voltando a uma ponta que deixei (propositalmente) solta no texto anterior: os personagens. Antes de mais nada, quero deixar claro que eu desenhei os dois torcedores de times rivais que acabam se unindo pra torcer pelo time do país deles na Copa (pelo menos esse era o conceito daquela ceninha do começo) com o mesmo cuidado com o qual estava desenhando o resto dos elementos do episódio (eu dei essa volta toda pra não cometer o mesmo erro que o Nizo Neto ao falar sobre a dublagem de Curtindo a Vida Adoidado nessa entrevista com o Jô Soares — para contexto, as comunidades de entusiastas da dublagem no saudoso Orkut caíram matando em cima dele em 2008 pela maneira como ele descreveu o processo).

Dito isso, eu admito que desenhei eles sem pensar demais. Precisávamos de dois personagens pra se abraçarem, eu não queria fazer nada muito complicado (até pra não fugir muito das nossas referências da época) e, quando vi, saiu um bonequinho com corpo de pílula, bracinhos, perninhas e um visual amigável, de modo geral. Curti, copiei ele e mudei o cabelo, a cor da pele e da roupa, e pronto, vida que segue.

Mas quando o Welligton viu o resultado, ele adorou e achou que daria pra adotarmos aquele como o padrão de todos os personagens do Enraizando — o que levou ao ladrão da taça seguir o mesmo modelinho.

Mais uma curiosidade: eu não queria ter que animar mãos de verdade pegando a taça, como estava no storyboard, então fiz essa garra mecânica pra simplificar minha vida

Isso teve impacto direto, inclusive, na cena de abertura do episódio, que fala sobre o “evento capaz de mobilizar multidões”. Originalmente, eu tinha feito algo bem mais genérico com aquela multidão:

Abertura original, nunca antes vista, do primeiro episódio

O Welligton e o Marcelo não gostaram nada daquele pessoal azul genérico no começo, então foi decidido que a multidão seria feita com o novo modelo — mas isso foi bem em cima da hora, já nos 40min do segundo tempo.

Então, eu criei, na correria, dois modelos de personagens femininas e passei pro Welligton, que fez um pessoal mais diverso pra versão final da abertura:

O problema era ainda ter que animar esse povo todo balançando os braços

Tempos depois, eu acordei meio assustado uma noite, achando que tivesse copiado, ainda que inconscientemente, o design dos personagens deste vídeo aqui:

Enfim, eu gosto de acreditar que a nossa galera desenvolveu uma personalidade própria ao longo do tempo e se afastou disso.
Superada essa etapa, fui pro resto das ilustrações — que, de modo geral, seguiam uma estética meio flat (e, em retrospecto, eu diria que falham um pouco nisso), sem nenhum tipo de perspectiva. Pra nos mantermos fiéis às referências — e, principalmente, pela nossa limitação de prazo — , quase não teríamos cenários, exceto aqueles que fossem absolutamente necessários.

Mas eu sinto que já me alonguei demais por hoje. Então, encerramos a questão das ilustrações e da estética do Enraizando na próxima semana — e, se der tempo, também matamos a animação no peito e chegamos mais perto da conclusão deste bastidor.

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